domingo, 2 de março de 2008

Introdução ao estudo dos anos 90 do futebol português

As mudanças

Os anos 90 no futebol luso foram particularmente interessantes, não tanto por grandes feitos (à excepção da vitória dos juniores no mundial de 1991 e ao "penta" do Porto), mas pelas mudanças e tendências que se começaram a desenhar: a queda do Benfica - que começou a década campeão e a disputar uma final da Taça dos Campeões com o AC Milan e que a acabou nos terceiros lugares e a sofrer uma histórica goleada em Vigo - ; o acentuar do domínio do Porto que culminou com o inédito pentacampeonato; a segunda metade da travessia no deserto do Sporting rumo ao título; o crescimento do Boavista que acabaria campeão em 2001; o surgimento de fenómenos como o Leça, o Alverca, o Campomaiorense ou o Felgueiras; a afirmação de boas equipas, que acabariam com um fim trágico, como o Salgueiros e o Farense.

Os plantéis

A meio da década, um tal de Jean-Marc Bosman provocou sem querer uma revolução que afectou inevitavelmente o futebol português: de equipas onde jogavam quase todos os grandes valores nacionais e apenas dois ou três estrangeiros, passou-se para uma enxurrada de jogadores das mais diversas nacionalidades enquanto os valores nacionais começavam a sair rumo a outras ligas.

Os jogadores

Ao nível dos seus mais importantes protagonistas, os anos 90 assistiram ao aparecimento de grandes valores, como Figo, João Pinto, Rui Costa ou Fernando Couto e, numa segunda fase, Nuno Gomes, Sérgio Conceição ou Jorge Andrade. Surgiram também grandes promessas, que rapidamente receberam o rótulo de promessas adiadas, como Peixe, Filipe, Dani, Hugo Leal ou Porfírio. Outros vindos de fora fizeram história: Valckx, Balakov, Jardel, Poborsky, Deco ou Aloísio.

Treinadores

Não houve nenhum fenómeno Pedroto ou Mourinho na década de 90, mas houve treinadores que deixaram a sua marca. Bobby Robson saiu inexplicavelmente do Sporting para o Porto para ganhar dois títulos de campeão e uma Taça, precisamente os títulos conseguidos por António Oliveira no mesmo clube após sair da selecção nacional, em 96. Carlos Queiroz tornou-se seleccionador nacional e foi para o Sporting onde ganhou uma Taça. Manuel José consolidou o Boavista como o quarto grande, um trabalho prosseguido pelo então jovem treinador Jaime Pacheco, depois de uma passagem pelo Vitória de Guimarães. Fernando Santos começa uma carreira de treinador no Estoril e, em meia dúzia de anos, torna-se treinador do Porto, onde consegue o pentacampeonato. Toni sucede a Sven-Goran Eriksson, conseguindo uma Taça em 1993 e um campeonato no ano seguinte.

Os presidentes

À estabilidade directiva no Porto, contrunham-se as sucessivas mudanças no Benfica (quatro presidentes no espaço de 10 anos) e no Sporting (três presidentes). O Boavista assistiu a uma sucessão dinástica, em que João Loureiro sucede ao pai Valentim Loureiro. Pimenta Machado marcou também uma época no Vitória de Guimarães.

Lá fora

No futebol internacional, apenas o Benfica conseguiu chegar a uma final europeia, perdendo a Taça dos Campeões Europeus em 1990. Em 1993/94, esteve perto de outra final, ao perder as meias-finais da Taça das Taças com o Parma. Tal como o Sporting, que foi eliminado pelo Inter de Milão em 1991 nas meias-finais. Um jejum de 10 anos, em matéria de participação em grandes provas de selecções, foi interrompido em 1996, com a participação num Europeu, situação repetida em 2000, tendo sido alcançados, respectivamente, os quartos-de-final e as meias-finais da competição.

Transmissões televisivas

De um jogo semanal transmitido pela TV2 no início da década, sem direito a transmissão de clássicos e de parte dos grandes jogos europeus, o público do futebol passou a aceder, 10 anos depois, à transmissão de jogos em sistema pay-per-view na Sport TV. Pelo meio, o surgimento de televisões privadas, onde ocorreu um reforço da oferta de futebol, com a transmissão de clássicos na recém-chegada SIC a causar grande furor. Esta progressiva subida na oferta televisiva, aliada às mudanças nos horários e ao fim dos jogos às 3 da tarde, acabou por motivar uma redução do público dos estádios.

Os casos

A década começa com notícias de desacatos protagonizados pelo conhecido “Guarda Abel” aquando das visitas do Benfica às Antas, nomeadamente ao então presidente João Santos. Benfica que teve, anos mais tarde, uma grave crise financeira – o chamado “Verão Quente” em 1993 – que culminou com a saída de Paulo Sousa e Pacheco rumo ao Sporting. A meio da década, os dois principais campeonatos saem esfera da Federação Portuguesa de Futebol para a Liga de Clubes. O caso de corrupção conhecido como o caso José Guímaro culmina com a descida de divisão do Leça. A morte de adeptos do Sporting, num jogo contra o Porto em que dois adeptos morrem ao cair de um gradeamento e na final da Taça em que um adepto morre após ser atingido por um “very light” vindo da claque do Benfica, suscita grandes discussões em torno do papel das claques. A notícia da SIC em torno da presença de prostitutas brasileiras num estágio da selecção quando esta era orientada por António Oliveira – o chamado “Caso Paula” - torna-se num “case study” do jornalismo português.

Grandes provas

A década começou com a realização de um Mundial de juniores, vencido pela equipa onde alinhavam Rui Costa, Fernando Couto e João Pinto, na final do Estádio da Luz. O final da década ficou também marcado pelo concurso para o Euro 2004, que Portugal venceu em 1999. Uma prova que acabaria por ditar o fim de estádios emblemáticos, como o Estádio de Alvalade, da Luz, das Antes ou o 1º de Maio.

1 comentário:

pereirarjr disse...

Boa introdução. Parece-me que deve ser estudado com pormenor o capítulo relativo à tremenda redução do n.º médio de espectadores nos estádios. Portugal não conseguiu acomodar um conjunto de elementos, desde o encarecimento dos bilhetes (parece que tem havido uma redução nos últimos tempos, mas não sei se estruturante...) às transmissões televisivas em massa em horários "despropositados", passando por imperativos de segurança (custosos financeiramente e "aburguesadores" de um espectáculo tradicionalmente popular). O futebol tem sido construído como um fenómeno de classe média e virado para as televisões. Parece não haver capacidade para, como em Itália, ter jogos a horários "decentes" e mesmo assim televisionados.